Déjà vu: o vigésimo aniversário de Resident Evil 2

20 anos é tempo suficiente para uma franquia ser criada, se reinventar e voltar às raízes.

252 meses é o suficiente para juntar uma pilha de mudanças e gêneros contraditórios em uma série só, basicamente tornando Resident Evil na mistura de gostos que mais convém para fãs específicos, ao passar por diversos filtros que não se relacionam bem.

Com toda essa audácia para revitalizar sua direção, fica difícil rastrear o que tornou a ressurreição de Sweet Home tão especial. Mas não estamos aqui para celebrar o nascimento da franquia em si, e sim o que popularizou e tornou a série no que ela realmente é hoje.

Estamos aqui para falar de Resident Evil 2.

O segundo game da série marcou uma época, tendências de mercado e acabou gerando uma coleção de referências para os próximos anos.

Absorvendo o caos de uma potência que acabou de cair, ao lidar com um cenário extremamente grotesco e apocalíptico, explodindo zumbis em pedaços com uma shotgun e suas peças raras, ou simplesmente apreciando o melhor do que um enredo cheio de reviravoltas e dramatização elevada podia oferecer na época, RE2 abriu as portas de uma franquia recente porém já consagrada, para uma horda de fãs mais diversos e curiosos que fizeram o jogo estourar em vendas.

Se o primeiro título da série já era considerado um sucesso para a Capcom, dá pra imaginar os horizontes que a sequência revelou para a publisher.

Mas como um próprio espelho do futuro da franquia, Resident Evil 2 oferecia muito mais que seu antecessor em diversos aspectos. Todo mundo concorda que RE2 é muito especial, mas cada jogador sabe sua preferência.

Utilizando perspectivas diferentes, neste vigésimo aniversário de Resident Evil 2 vamos decifrar o que os fãs acham das partes mais únicas e essenciais para o sucesso do título.

                         CENÁRIO A: O DESENVOLVIMENTO.

 

Resident Evil mudou minha vida. Tal afirmação é tão real quanto aquele primeiro contato, tão vívido em minha memória mesmo vinte e um anos depois. A partir de então, vivi furiosa e fervorosamente a franquia de aberrações genéticas da Capcom.

Makson Lima não tem seu amor declarado apenas para Resident Evil, suas raízes com o gênero de horror contornam uma ligação ainda mais forte com o lado horrendo que a franquia pode oferecer. Ele dispõe de seu tempo para libertar seu entusiasmo entoxicante no Mas Que Horror, onde passeia pelas mídias que o terror abraça.

Resident Evil 2 foi a primeira antecipação – toda e qualquer revista encontrada nas bancas, e que continham informações sobre o aguardado lançamento, era devidamente devorada por aquele adolescente já fanático por horror. Lembro de cada deslumbre; dos dois discos (piratas, claro), da cidade em polvorosa, da quantidade de zumbis, da aberração no teto, do necrotério, da misteriosa mulher de vermelho e, especialmente, do cientista monstro, elucubração a um Dr. Jekyll já vívido em meus pensamentos.

Quando analisado em retrospecto – e com máxima propriedade, afinal, se trata de uma das obras mais revisitadas de que posso me lembrar – o impacto permanece, assim como o das grandes obras de artes com as quais tive o prazer de me deparar no decorrer de minha existência. Antecipar uma revitalização do já clássico desde agosto de 2015, revigora um sentimento sempre presente, pulsante: o da luta por sobrevivência daquele policial novato e da irmã mais nova de um amigo e herói (Chris sempre preencherá tais espaços em meu mundo fictício). Conforme passei a estudar e analisar a mídia como adulto, naturalmente a elucidar um amor torrencial e, por consequência, por resultado profissional, pude me deparar com histórias ainda mais fascinantes, histórias essas protagonizadas por pessoas reais, dos responsáveis por realizarem tal obra quintessencial ao horror e aos videogames como mídia.

Caso o faro fino do gênio Shinji Mikami tivesse falhado naquela fatídica noite, qual teria sido sua escolha que não Hideki Kamiya? Jamais saberemos – e não precisamos saber, pois lidar com essa realidade é tão espetaculosa e maravilhosa quanto mergulhar, sem titubeio, nas ruas caóticas e virulentas de uma Raccoon City às vésperas de seu fim apocalíptico.

                             CENÁRIO B: AS CONSEQUÊNCIAS.

 

Quando Resident Evil 2 foi anunciado, eu achava que Chris e Jill jamais seriam superados para mim por conta de uma grande quantidade de razões, mas Leon e Claire conseguiram tocar o meu coração. Gosto do Leon novato, inocente, que quer ajudar as pessoas, mas ninguém quer ouvi-lo. E adoro o espírito aventureiro da Claire, seu instinto maternal com Sherry sem medir esforços para ver a garotinha segura.

Apesar do REmake ser o meu jogo favorito, o que eu mais gosto de jogar é Resident Evil 2. Quando eu era mais nova, tinha uma folhinha onde anotava todas as minhas jogadas de RE2. O tempo, o ranking, quantas vezes salvei, etc. Esta folha estava mais cheia do que as do demais jogos. A razão para isto é a dificuldade de Resident Evil 2, que torna o jogo mais prazeroso. Ele não é nem fácil e nem difícil, os seus desafios são na dose certa, assim como o número de inimigos na tela, a força das armas, entre outros aspectos.

Monique Alves, ou melhor, Red Queen, é basicamente conhecida como a embaixadora oficial de Resident Evil no Brasil. Seus esforços renderam grandes sites e uma comunidade fortíssima ao redor do seu amor pela série. Desde setembro de 2000 ela está por aí, e muitos diriam que ela é a referência para o assunto em qualquer lugar.

E, neste momento de celebração, deixar de citar o infame Resident Evil 1.5 é algo inaceitável. Esta seria a versão sucederia o primeiro jogo, e traria uma trama levemente diferente, com personagens distintos dos que ficaram na versão final. Eu sempre encho o peito para dizer: ainda bem que Resident Evil 2 foi refeito! A sua jogabilidade seria um repeteco do primeiro jogo, que é conhecido pelos fãs por ser o mais travado. Felizmente, a equipe de produção decidiu descartar esta versão e começar do zero, e foi a melhor coisa que aconteceu com Resident Evil 2: sua jogabilidade melhorou infinitamente, e até os inimigos ganharam movimentos novos. Imagine só, você atirando em um deles, e ele simplesmente pula, grudando em seu pé e mordendo sem parar! A movimentação dos personagens ficou mais suave, e não precisamos mais entrar no inventário para ver o status do personagem, bastando ver como ele está se movimentando. Se estiver com a mão na barriga ou mancando, é sinal de que algo não está bem. Não sei vocês, mas me dá pena (e um pouco de raiva!) de andar com o personagem ferido, então sempre faço questão de curá-lo o mais rápido possível.

Adoro todos os personagens coadjuvantes deste jogo. Todos eles são extremamente carismáticos, trabalho incrível desempenhado pelo também incrível roteirista Noburo Sugimura, falecido em 2005. A história de Resident Evil nunca mais foi a mesma sem a sua presença… Felizmente, Resident Evil 2 ganhou o tratamento que merecia, angariando prêmios de melhor jogo antes mesmo de ser lançado, graças não só à sua jogabilidade, mas também à sua trama perfeita. Ada Wong, nome trazido do primeiro jogo, foi uma grata surpresa. Ela é a personagem favorita de muita gente, não é a minha, a imagem dela foi um pouco cansada pela Capcom, mas nossa principal anti-heroína, de certa forma, também merece destaque. Quem nunca torceu por ela e pelo Leon?

Sherry Birkin, a inocente garotinha perdida na cidade, nos representa, queira você ou não. Ainda assim, ela é mais corajosa do que muitos de nós que jogamos e até nos colocamos em seu lugar, reclamando de seus movimentos lentos e de seus temores. William Birkin também merece ser citado. Ele, que é um dos melhores chefes da série, tem uma história singular como pesquisador prodígio da Umbrella. E pensar que ele é praticamente o único chefe do jogo, passando por transformações atrás de transformações impossíveis de serem previstas por ação do G-Virus.

Monique não só utiliza de seu site mais recente, o Resident Evil Database, para falar de notícias não, ela faz questão de traduzir documentos presentes nos games, destrinchar livros e adaptações da franquia, e ainda por cima trazer entrevistas com quem está por trás das cortinas: os desenvolvedores que continuam na Capcom e até os que já seguiram em frente com outros projetos, mas ainda tem Resident Evil como a base de seu trabalho na indústria.

Todos estes elementos fazem de Resident Evil 2 um jogo único e incomparável. Só tenho a agradecer à Capcom por ter colocado não só a franquia toda na minha vida, mas especialmente por Resident Evil 2, que entra facilmente no meu top 3 de títulos favoritos da franquia. Como bem dizia a sua chamada: se o suspense não te assustar, algo mais irá. Resident Evil 2, pelo conjunto da obra, tem tudo na dose certa, desde os momentos de terror até as pitadas de ação de que o jogo precisava. Agora, nos resta torcer para que o Remake seja digno de sua obra original, o que é muito difícil de acontecer. A Capcom não sabe (ou talvez até saiba) o tamanho da responsabilidade que tem em suas mãos…

Não satisfeita fazendo tanta coisa pela série, a Red Queen ainda orbita ao redor de tudo relacionado a Resident Evil com seu canal no YouTube, onde faz vlogs, livestreams e de vez em quando nos presenteia com conteúdos exclusivos, trazendo os grandes nomes por trás das vozes dos personagens da série, por exemplo.

                                          CENÁRIO C: O PALCO.

 

Acho que dá pra dizer que Raccon City tá lá pra fingir ser um gigantesco labirinto em questão de level design. A primeira impressão que dá quando se começa a explorar a cidade é que tem infinitos becos que conectam com infinitas ruas, e apesar da destruição da cidade limitar sua exploração, tudo ainda se mantém imenso o suficiente para assustar.

Becos levam a ruas cheias de zumbis, e considerando a quantia de balas que você tem, correr entre eles se torna a única opção. Cada inimigo nesta rota está posicionado de uma maneira que as vezes torna combate algo inevitável e a tensão de gastar munição uma constante preocupação em sua mente.

Vitor De Freitas Santos, como muitos de nós, cresceu jogando Resident Evil e acabou se apaixonando pela série bem rápido. Fica até difícil disputar sua posição de jogo preferido dentro da franquia, mas RE2 definitivamente está no topo, lutando contra o novato “7” e o terceiro título da série. Hoje ele pode ser encontrado fazendo lives no Maid Café, onde passa seu tempo livre jogando, conversando com seus colegas e até mesmo dando espaço para eles rabiscarem de vez em quando, com artistas fazendo desenhos ao vivo e speedpaints.

E de alguma forma, quando se chega na R.P.D. isso muda, os becos e inimigos cuidadosamente posicionados se mantém, porém, agora temos coisas que já estavam presentes em RE1. Puzzles, salas seguras, backtracking e muita memorização. Dentro da delegacia você precisa lembrar onde fica cada inimigo, cada item e todas as porta trancadas, algo que o breve exterior de Raccoon City não exigia antes, sem falar também que aqui eles nos apresentam os Lickers e eles sim eram uma ameaça maior.

                                    CENÁRIO D: O BESTIÁRIO.

Talvez um dos pontos mais marcantes de Resident Evil 2 seja o design dos inimigos e também como estes são apresentados para o jogador. Além dos clássicos zumbis e da volta dos vorazes Cerberus, RE2 trouxe inimigos muito marcantes, e que se tornaram ícones da franquia.

Um dos grandes representantes do jogo acaba sendo o Licker, uma criatura que foi introduzida em Resident Evil 2 e, apesar de ter retornado em outros jogos da série, jamais teve o mesmo charme.

A cena do Licker pouco depois de entrarmos na R.P.D não somente serve para mostrar que o local não é nada seguro como esperávamos, mas também introduz um novo inimigo com uma das aparências mais marcantes da franquia. Com a bizarra forma esguia, o cérebro exposto, as garras afiadíssimas e uma língua imensa, os Lickers são o principal fator de insegurança para o jogador e se apresentam como uma grande ameaça a Leon e Claire. A criatura emite sons muito sutis e extremamente assustadores. Com a câmera fixa, uma situação de tensão maior é criada quando o jogador consegue ouvir o Licker mas não sabe exatamente onde ele está; a criatura pode se mover pelo teto e pelas paredes, tornando os ataques ainda mais surpreendentes.

Bruna Mattos teve seu carnaval roubado por conta de um tempo chuvoso em 2003, mas tal feriado acabou se tornando a porta de entrada para a série Resident Evil. Com uma cópia de RE3 não mão, e sem um memory card na outra, Bruna sobreviveu a Raccoon City e acabou se tornando uma grande fã, coisa que alavancou uma carreira para a jogadora.

Apesar do primeiro impacto causado pelos Lickers com a cena inicial na R.P.D, o momento mais marcante da criatura acaba sendo com um dos sustos mais impactantes de toda a série, com o Licker que salta através do vidro de uma sala de interrogatório. É uma versão aprimorada dos Cerberus na janela da mansão de Resident Evil 1, mas talvez com um adicional de desespero por conta do espaço muito restrito da sala.

Outros dois inimigos que também contribuem para que Resident Evil 2 seja um grande marco na história da Capcom são G-Type e o Tyrant T-002. Ambos introduzem o conceito do ‘nemesis’, tão explorado em Resident Evil 3 – aquela criatura que persegue incansavelmente os personagens e criam várias batalhas de chefe em momentos decisivos do gameplay.

O Tyrant, ou ‘Mr. X’ garante bons sustos ao aparecer de forma surpreendente e acompanhado de uma música que faz o coração disparar. Um dos momentos mais memoráveis do monstro é quando ele atravessa uma das paredes da delegacia: o jogador acredita que conseguiu escapar da ameaça, mas é pego de surpresa com a força do Tyrant.

Já o G-Type não parece tão ameaçador de início, mas vale destacar a criatividade dos designers com suas diversas formas de mutação. São cinco aparências ao todo, sendo que cada uma delas oferece uma estratégia e um gameplay diferente. Outro grande fator que torna o G-Type tão memorável é todo o background do cientista William Birkin e a relação com sua filha, Sherry. Com este ponto, a criatura vai além de um mero inimigo que deve ser derrotado para que o gameplay prossiga, mas apresenta a trágica história de um homem ambicioso que levou a ciência longe demais.

Próximos ao carnaval de 2018, atualmente podemos acompanhar seu trabalho dentro do site Meu PS4, onde notícias do vindouro Resident Evil 2 Remake, com tudo relacionado a franquia e o console em si, podem ser encontradas facilmente.

Resident Evil 2 é o tipo de jogo que assombra os desenvolvedores com a possibilidade de um remake. Um game cuja a própria sombra permeia entre os maiores títulos da atualidade com folga, elevando o gênero survival horror para um patamar quase inalcançável.

Entre uma trilha sonora extremamente impecável, uma pintada de ação com encontros dinâmicos e cada vez mais satisfatórios, design de inimigos que marcaram uma época e geraram a imagem da franquia em si, RE2 fez muito mais do que qualquer um poderia esperar de uma série como Resident Evil, e popularizou a marca para um nível ainda mais popular e geral entre o público.

Celebrar Resident Evil 2 é quase como celebrar o nascimento da franquia em si, porque sem ele talvez a série nunca tivesse visto o potencial de tentar coisas novas.

 

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