A opressão e o enfrentamento constante de Resident Evil

Dar ideia errada, encorajar e influenciar pessoas próximas a decisões ruins não é exclusividade de época alguma. Porém, eu diria que a infância traz um ambiente muito propício a esse tipo de situação, ainda mais por ser a fase que ainda não sabemos lidar direito com as implicâncias da ingenuidade, até aprender com o próprio erro. Coisa que o Gabriel com sete anos de idade, descobriu em meados de 2006.

Em um final de tarde cinza, trovões cintilavam no céu, e isso significava que jogar bola não seria viável naquela noite. Então, um menino um pouco mais velho sugeriu que subíssemos lá no apartamento dele para jogar um game novo, garantindo que seria diferente de tudo que a gente já tinha visto. Basicamente, ele prometia sangue, morte e um conteúdo assustador. A malícia de um garoto querendo ver pessoas se assustando e possivelmente chorando pela mãe não foi o suficiente para matar minha curiosidade, e acabei assistindo alguém jogar Resident Evil 4 com a trupe pela primeira e última vez. Não foi uma boa experiencia.

Eu ainda não tinha um console comigo, e por isso sempre tive que esperar a oportunidade de testar algum título na casa de amigos. Isso ficou marcado como algo descontraído, já que na maior parte do tempo jogávamos PES, Need for Speed ou as saudosas séries da Rockstar, como: Bully e GTA San Andreas. Minha referencia para videogame na época se reduzia a esta lista, e isso acabou culminando para um choque absurdo ao me deparar com tamanha violência e fidelidade gráfica. Fiquei dias me perguntando por que todo mundo naquela região decrépita de fim de mundo te atacava e agia de forma tão violenta. Passei horas tentando esquecer a imagem clássica do churrasquinho de guarda e como seu destino foi cruel. Esse caso impressionou tanto a mim e todos os envolvidos que nunca mais nos reunimos pra joga-lo novamente. Mas alguns meses depois, eu ganhei meu primeiro PlayStation 2.

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Claro que, a minha curiosidade e vontade de voltar naquele universo horrendo fizeram com que Resident Evil 4 fosse um dos primeiros jogos que comprei, mesmo que me faltasse coragem o suficiente para jogar sozinho. Eis que, decidi replicar a fórmula do mal gosto e chamei um amigo do condomínio que não estava presente naquele dia, para experimentar o game na casa dele. Entreguei, ou melhor, joguei o controle na mão dele assim que fui obrigado a enfrentar os Ganados fora da casa inicial, o que não ajudou muito, já que ele devolveu pra mim na mesma hora. Todo desengonçado e tremulo, errando a mira e perdendo vida, acabei conseguindo chegar na cabana com a primeira máquina de escrever, onde a música relaxante me deu tranquilidade suficiente para absorver tudo o que passei e regenerou minha vontade de continuar. Foi uma jogatina breve, já que o menino ficou desgraçado da cabeça com o título e pediu para que eu nunca mais levasse na casa dele. Me senti obrigado a terminar o que comecei, e ignorei meus medos de jogar sozinho em casa.

Não demorou muito para que eu me acostumasse com o combate travado, e começasse a notar que os inimigos eram mais cômicos do que assustadores. A curiosidade mórbida se tornou em diversão, e meu pequeno exercício de enfrentamento acabou se tornando um passatempo. Aprendi a lidar com o gerenciamento de itens, comecei a apreciar o pouco que entendia da história do game, e até comemorei com o final feliz clássico da série em direção ao amanhecer. Com o tempo comecei a saborear outros valores dentro de Resident Evil 4, que se esticaram mais ou menos até dez anos depois na franquia, em 2016.

Em junho deste ano, a série retornou com o anúncio do seu sétimo game, e um dos seus grandes destaques é a suposta volta do survival horror, coisa que já escrevi sobre aqui no site. Mas isso me trouxe o mesmo sentimento daquela noite chuvosa em meu condomínio. A curiosidade bizarra de sobreviver a um novo tipo de horror, e aquele desejo de colocar o exercício de enfrentamento em prática de novo. Por isso, enquanto o título não chega, decidi brincar com o Resident Evil HD Remaster.

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Provavelmente nada vai superar aquelas primeiras horas nas quais tive que enfrentar meus medos com RE4, entretanto, sobreviver aos puzzles megalomaníacos e o ambiente absurdamente opressivo da mansão Spencer foi mais uma experiencia inigualável. Anteriormente, apenas tinha jogado o Remake na casa de um amigo em seu GameCube, mas nunca tinha chegado a completar o jogo, apesar de saber exatamente como os eventos se desenrolaram no Resident Evil 1. Ter que lidar com o mapa espacial dos corredores estreitos, enquanto me preocupava com os recursos escassos e o risco de perder todo o meu progresso, trazia essas sensações que são “o algo a mais” no qual poucos games conseguem replicar atualmente – inclusive, seria um sacrilégio não citar a franquia Souls neste momento – e ainda tendo o esforço de estar balanceando esses elementos de uma forma que o jogador tenha seus momentos de descanso, te fazendo sentir vitorioso e merecedor após passar por momentos complicados. Aliás, tudo isso combina perfeitamente com o tempero especial do título que é ter a obrigação de enfrentar inimigos muito resistentes, pavorosos, sendo que com apenas um golpe poderiam te atrapalhar de uma maneira fodida.

Foi uma experiencia muito trabalhosa e recompensadora, que se tornou um nível novo de enfrentamento para mim, trazendo todos aqueles sentimentos antigos de volta. Aprendi muita coisa com Resident Evil HD Remaster, e o mais importante, isso me fez entender exatamente o que me atraiu e fez gostar tanto da franquia desde sempre. Demorou um pouco mais do que deveria, mas me sinto realizado.

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Nada me vendeu mais do que isso para Resident Evil 7, e não é só pela semelhança com seu primogênito, mas pelo seu pacote de dúvidas cruéis e a volta da minha curiosidade mórbida. Aguardo ansiosamente para a minha próxima dose de enfrentamento, e espero que como todas as outras, acrescente a fórmula inesquecível da franquia.

 

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